Ritos de São João

Chegada a véspera da festividade em honra do arauto do Messias, encetavam-se vários rituais associados às “virtudes místicas” de certas plantas e às propriedades benfazejas da água. A maioria cumpria-se antes do nascer do Sol, pois era crença do povo que os primeiros raios de luz “evaporavam a orvalhada,” eliminando os poderes mágicos de uma “noite privilegiada.” Colhiam-se ervas para a feitura de chá – entre elas a cidreira, a malva e a hortelã –, dispunham-se determinadas espécies vegetais nas casas, nos campos e nas cortes dos animais para afugentar o mau-olhado e buscavam-se as fontes para lavagem do rosto e do cabelo.

Também os jogos de adivinhação, geralmente relacionados com o casamento e com a ventura, traduziam uma prática comum na madrugada de São João. As moças solteiras deitavam um ovo num copo com água e, na manhã seguinte, antes do sol-nado, tentavam predizer a sorte, interpretando as formas que as claras tomavam: a figura de uma igreja indicava a proximidade de um matrimónio; o desenho de um barco anunciava uma viagem, enquanto um caixão podia vaticinar a morte de alguém.

Festejadas “com algazarra,” as solenidades do precursor de Cristo incluíam as costumeiras “atrancadas” – partidas pregadas na véspera com objetos subtraídos dos seus locais de origem, naturalmente sem o conhecimento dos respetivos proprietários. Tudo o que fosse possível de pegar e de carregar – cancelas, alfaias agrícolas, vasos e carros de lavoura, entre outros – era levado para a imediação do nicho de Nossa Senhora dos Caminhos, forçando os donos ao resgate dos pertences no dia seguinte. Mas nem só de objetos viviam as travessuras são-joaninas. Certa vez, os folgazões apanharam um jerico e prenderam-no com uma corda ao sino da igreja paroquial de São Cristóvão, colocando a parca distância alguma comida. Ora, sempre que o animal se movia para alcançar o alimento, o sino da matriz badalava sem parar, alvoroçando as gentes da vizinhança.

(Transmissoras: Emília Meneses e Maria Nunes)

Fontes:

ARAÚJO, Maria José – Símbolos alimentares e manjares da noite mais longa do Porto… Revista Prâksis [Em linha]. Vol. 1 (2018). [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.redalyc.org/journal/5255/525553845001/html/>

OLIVEIRA, Ernesto Veiga de – O S. João em Portugual In Festividades cíclicas em Portugal [Em linha]. [S.l.]: Etnográfica Press, 1995. [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:< https://books.openedition.org/etnograficapress/5968#anchor-toc-1-16>

BRAGA, Alberto Vieira – De Guimarães: tradições e usanças populares… [Em linha]. Esposende: Livraria Espozendense, 1924. [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.csarmento.uminho.pt/site/s/sms/item/172041#lg=1&slide=0>

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