São Cristóvão, padroeiro da Labruja
"Aquele que carrega Cristo"
A importância e o alcance da versão lendária do bom gigante que transporta Cristo sentem-se na maioria das representações iconográficas do santo. Por toda a parte, as esculturas mostram-no imponente, alto e vigoroso, descalço e de vestes humildes – geralmente uma túnica e um manto – com um bastão à direita e o Menino Jesus – que surge coroado e com o globo terrestre numa das mãos – sobre o ombro esquerdo. Assim é a estátua que figura no altar-mor da igreja paroquial da Labruja dedicada, conforme dissemos, a São Cristóvão. Pode ser apreciada do lado do Evangelho, à esquerda de quem entra.
Fontes:
AMARAL, Clínio de Oliveira; RANGEL, João Guilherme Lisbôa – A circulação da Legenda Aurea em Portugal: estudo de caso da hagiografia de D. Fernando. Mirabilia [Em linha]. N.º 24 (jan-jun 2017). [Consult. 16 jul. 2025]. Disponível na Internet:< Dialnet-ACirculacaoDaLegendaAureaEmPortugal-6144084 (1).pdf>
São Cristóvão na Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, [2003-2025]. [Consult. 16 jul. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.infopedia.pt/artigos/$sao-cristovao>
SALDANHA, Sandra Costa – Obras de imaginária na Igreja de São Cristóvão: observância devocional e programa iconográfico In A Igreja de São Cristóvão de Lisboa [Em linha]. [S.l.]: Paulinas, 2019. [Consult. 16 jul. 2025]. Disponível na Internet:< 2019 – Obras de imaginaria na igreja de Sao Cristovao (1).pdf>
Quadras e ritos de são João
São João era bom santo
Se não fosse tão velhaco
Foi com as moças à fonte
Levou três e trouxe quatro.
São João para ver as moças
Fez uma fonte de prata
As moças não vão lá
São João todo se mata.
Ó meu rico São João,
A tua capela cheira
Cheira a cravos, cheira a rosas,
Cheira a flor de laranjeira.
O meu São João Batista
Prometeu e há de dar
Carvalhos para dar sombra
Rapazes para namorar.
São João,
São Joãozinho,
Quando não posso com o maior
Trago o mais pequenino.
Ervas bentas
Chegada a véspera da festividade em honra do arauto do Messias, encetavam-se vários rituais associados às virtudes místicas de certas plantas e às propriedades benfazejas da água. A maioria cumpria-se antes do nascer do Sol, pois era crença do povo que os primeiros raios de luz evaporavam a orvalhada, eliminando os poderes mágicos de uma noite privilegiada. Colhiam-se ervas para a feitura de chá – entre elas a cidreira, a malva e a hortelã –, dispunham-se determinadas espécies vegetais nas casas, nos campos e nas cortes dos animais para afugentar o mau-olhado e buscavam-se as fontes para lavagem do rosto e do cabelo. Também os jogos de adivinhação, geralmente relacionados com o casamento e com a ventura, traduziam uma prática comum na madrugada de São João. As moças solteiras deitavam um ovo num copo com água e, na manhã seguinte, antes do sol-nado, tentavam predizer a sorte, interpretando as formas que as claras tomavam: a figura de uma igreja indicava a proximidade de um matrimónio; o desenho de um barco anunciava uma viagem, enquanto um caixão podia vaticinar a morte de alguém.
Festejadas com algazarra, as solenidades do precursor de Cristo incluíam as costumeiras atrancadas6 – partidas pregadas na véspera com objetos subtraídos dos seus locais de origem, naturalmente sem o conhecimento dos respetivos proprietários. Tudo o que fosse possível de pegar e de carregar – cancelas, alfaias agrícolas, vasos e carros de lavoura, entre outros – era levado para a imediação do nicho de Nossa Senhora dos Caminhos, forçando os donos ao resgate dos pertences no dia seguinte. Mas nem só de objetos viviam as travessuras são-joaninas. Certa vez, os folgazões apanharam um jerico e prenderam-no com uma corda ao sino da igreja paroquial de São Cristóvão, colocando a parca distância alguma comida. Ora, sempre que o animal se movia para alcançar o alimento, o sino da matriz badalava sem parar, alvoroçando as gentes da vizinhança.
O poço do sino
Concluímos com a referência a mais uma lenda envolvendo um poço “muito alto” existente no ribeiro de São João, lá para as bandas da Grova, onde o curso de água cristalina nasce, perto da capela dedicada ao popular taumaturgo. O episódio é mencionado nas páginas da Corografia Portuguesa do Pe. Carvalho da Costa, obra de 1706, e confirmado pelas anciãs da aldeia. Diz a tradição que naquele pego jaz um sino antiquíssimo que seguia para um mosteiro presumivelmente situado na imediação da atual ermida. Terá caído nas profundezas do poço quando os homens e o carro de bois que cuidavam do seu transporte resvalaram – julga-se – nos terrenos da encosta, desaparecendo para sempre, tragados pelo abismo. Segundo o povo, aquele que estivesse na graça de Deus ouvia à meia-noite o repique do sino*. *Há quem fale em mais do que um instrumento.
(Transmissoras: Emília Meneses e Maria Nunes)
Fontes:
PIMENTEL, Alberto – As alegres canções do Norte [Em linha]. Lisboa: Livraria Viuva Tavares Cardoso, 1905. [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:< https://archive.org/details/asalegrescan00pimeuoft/page/n7/mode/2up?view=theater&q=aurora>
ARAÚJO, Maria José – Símbolos alimentares e manjares da noite mais longa do Porto… Revista Prâksis [Em linha]. Vol. 1 (2018). [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.redalyc.org/journal/5255/525553845001/html/>
OLIVEIRA, Ernesto Veiga de – O S. João em Portugual In Festividades cíclicas em Portugal [Em linha]. [S.l.]: Etnográfica Press, 1995. [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:< https://books.openedition.org/etnograficapress/5968#anchor-toc-1-16>
BRAGA, Alberto Vieira – De Guimarães: tradições e usanças populares… [Em linha]. Esposende: Livraria Espozendense, 1924. [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.csarmento.uminho.pt/site/s/sms/item/172041#lg=1&slide=0>
COSTA, António Carvalho de – Corografia portugueza e descripçam topográfica do famoso Reyno de Portugal… [Em linha]. Lisboa: na oficina de Valentim da Costa Deslandes, 1706-1712. Tomo 1. [Consult. 12 jun. 2025]. Disponível na Internet:<purl.pt/434>
Responsório de Santo António
Lisboa foi a aurora do seu oriente, (…) Pádua a sepultura do seu ocaso.
Considerado o “Santo do povo”, adorado e invocado no país e no mundo, o taumaturgo lusitano é, provavelmente, uma das figuras mais celebradas e multifacetadas da Igreja Católica. Patrono dos comerciantes, padroeiro dos pobres, protetor dos animais e santo casamenteiro, entre vários outros atributos, também acha objetos perdidos, roubados ou esquecidos, razão pela qual se lhe dirigem responsórios ou responsos – orações populares antiquíssimas transmitidas em contexto doméstico e eternizadas na memória oral. Estes atos de fé ainda vigentes, alicerçados na capacidade milagreira de Santo António, apresentam versões distintas, mas convergem na necessidade de precisão no momento de desfiar a reza – havendo enganos, o pedido não se concretiza. Transcrevemos, agora, um responsório recolhido na Labruja.
Ó meu padre Santo António
Que ao monte Sinai subiste
Uma voz do céu ouviste:
– António, António, volta atrás
[O teu Santo Breviário acharás
Em cima dele Jesus Cristo]
Quatro coisas lhe pedirás
O perdido seja achado
O roubado restituído
O vivo guardado
E o esquecido lembrado
Pela graça de Deus
E da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
Este pedido com fé
É aceite por Santo António.
(Transmissora: Emília Meneses)
Fontes:
VIEIRA, António – Sermão de Santo António In Sermões [Em linha]. [Consult. 16 maio 2025]. Livro eletrónico disponível na Fundação Biblioteca Nacional do Brasil em:< https://objdigital.bn.br/objdigital2/Acervo_Digital/livros_eletronicos/bndigital0116/bndigital0116.pdf>
VEIGA, Edison – O frade português que se tornou o santo mais popular do Brasil. BBC News [Em linha]. (12 jun. 2024). [Consult. 16 maio 2025]. Disponível na Internet:< https://www.bbc.com/portuguese/articles/ckml56krrd1o>
GOMES, Mariana; SANTOS, Isabel Dâmaso – Tradição devocional de Santo António [Em linha]. (2007). [Consult. 16 maio 2025]. Disponível na Internet:< https://www.clul.ulisboa.pt/files/mariana_gomes/TRADICAO_DEVOCIONAL_DE_SANTO_ANTONIO.pdf>
ARAUJO, Sabrina Machado; COLVERO, Ronaldo Bernardino – A prática cultural do responso em Mostardas. Semina: revista dos pós-graduados em História [Em linha]. Vol. 20, n.º 3 (set./dez. 2021). [Consult. 16 maio 2025]. Disponível na Internet:< 13119-Texto do artigo-15308042-1-10-20211228.pdf>
SILVA, Arnaldo Duarte da – Responsos, lendas e rezas de Adeganha, Torre de Moncorvo. Revista Memória Rural [Em linha]. N.º 2 (2019). [Consult. 16 maio 2025]. Disponível na Internet:< 60-Texto Artigo-77-1-10-20200120.pdf>
A Encomendação ou o Apregoar das Almas
Nos idos do tempo, quando as luzes da noite eram tão-somente as estrelas do céu, cumpria-se um interessante ritual comunitário destinado a sufragar aqueles que penavam nas chamas ardentes do Purgatório. Esta “liturgia popular, praticada à margem da igreja,” decorria no período penitencial da Quaresma, em contexto noturno, mal o sino batesse as nove horas sombrias. Nesse momento, homens e mulheres ajuntavam-se em grupos e tomavam a direção dos locais mais elevados da aldeia para que as gentes da Labruja e das povoações circunvizinhas do Bárrio e de Cepões escutassem o coro de vozes plangentes num apelo coletivo à oração. Do alto dos lugares da Casa Branca e da Torre – dois dos sítios mais evocados por quem se recorda do costume –, os encomendadores iam ecoando uns “cânticos arrastados e suplicativos” que exortavam à reza pela “ressurreição das almas depois de purificadas no Purgatório” – espaço “encaixado entre o paraíso e o inferno.” Estas composições quase pranteadas traduziam, ademais, a consciência da efemeridade da vida e a necessidade de observância dos “ideais cristãos” para obtenção “de conforto e de segurança no encontro com a morte.”
Alerta, alerta!
A vida é curta,
A morte é certa!
Ó irmãos meus,
Filhos de Jesus Cristo,
Lembrai-vos das benditas almas
Que estão no fogo do Purgatório.
E quem puder rezar um Padre-Nosso com uma Ave-Maria
Será por amor de Deus.
No recato das suas casas, os crentes atendiam aos cantos, acendendo velas e orando pelas almas dos defuntos com respeito e devoção. Era convicção do povo que esta prática de sufrágio, além de abreviar “a ascensão ao céu,” favorecia a futura intercessão dos mortos pelos vivos – os encomendadores das preces – numa espécie de “lógica de reversibilidade de méritos.”
O apregoar das almas – ato de purificação associado ao “progresso espiritual e ao alívio das penas” – está há muito desvinculado do calendário ritual da Labruja e das formas de expressão da religiosidade das suas gentes. Ficam as memórias de quem ainda se lembra daquela performance vocal inserida no contexto da Quaresma.
Fontes:
ISIDRO, Alexandra (coord.) – Encomendação das almas no concelho da Guarda: a singularidade de uma tradição secular [Em linha]. Guarda: Município, 2010. [Consult. 11 mar. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.ccdrc.pt/wp-content/uploads/2023/12/monografia16.pdf>
ANTUNES, Pedro Gonçalo Pereira – Depois da morte: o restauro imaterial da encomendação das almas [Em linha]. Trabalho de projeto apresentado à Universidade Nova de Lisboa em 2015 para obtenção do grau de Mestre em Antropologia. [Consult. 11 mar. 2025]. Disponível na Internet:< https://run.unl.pt/bitstream/10362/16181/1/depois%20da%20morte%20%28EdA%29.pdf>
LOPES, Maria Inês Afonso – A devoção às almas em Portugal: perspetiva antropológica e histórica. In Genius Loci: lugares e significados (vol. 2) [Em linha]. Porto: CITCEM, 2017. [Consult. 11 mar. 2025]. Disponível na Internet:< https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/17041.pdf>
PASSARELLI, Ulisses – Encomendação das almas: um rito em louvor dos mortos. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei [Em linha]. Vol. 12 (2007). [Consult. 11 mar. 2025]. Disponível na Internet:< https://docs.google.com/document/d/1_mwRyDvZhTbbdo8qncrO9OLPEPcaTaf8n6pNBSXELwg/edit?tab=t.0>
AGUIAR, Cristina – Fragmentos atávicos na relação com Além na religiosidade popular. In O céu é apenas um disfarce azul do inferno [Em linha]. Porto. Universidade, 2016. [Consult. 11 mar. 2025]. Disponível na Internet:< https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/14394.pdf>
A Senhora das Candeias
Também nesta data se cumpre um interessante rito devocional, de cariz profilático, destinado a aplacar as tempestades e a proteger as casas de lavoura – e, sobretudo, os animais e os plantios – dos efeitos devastadores das enchentes e das fortes trovoadas. Falamos das velas bentas sagradas pelo padre na missa solene da Candelária, que se guardam e se acendem nas intempéries, reforçando-se o gesto de fé com a recitação do terço – sinal da crença do povo na intercessão da Virgem Santíssima – e com a invocação de Santa Bárbara a quem se dirigem preces aflitas. As medidas de proteção incluem ainda a queima de um raminho benzido no domingo que antecede o da Páscoa, geralmente na lareira. As gerações mais velhas do território continuam a observar estes preceitos.
Fontes:
RODRIGUES, Maria Idalina R. – Auto de Sancta Barbara: a herança e os arranjos. Via Spiritus [Em linha]. N.º 1 (1994). [Consult. 5 jan. 2025]. Disponível na Internet:< https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3444.pdf>
RESENDE, Joaquim Francisco Batista – Arraias e a festa de Nossa Senhora das Candeias: aspetos histórico-devocionais. Teologia das religiões [Em linha]. Ponta Grossa: Atena Editora, 2019. [Consult. 5 jan. 2025]. Disponível na Internet:< arraias-to-e-a-festa-de-nossa-senhora-das-candeias-aspectos-historico-devocionais.pdf>
ROSSI, Aparecido Donizete – A vela e o ramo… [Em linha]. Comunicação apresentada no XIII Congresso Internacional de ABRALIC, Campina Grande, 8 a 12 de julho de 2013. [Consult. 5 dez. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.editorarealize.com.br/editora/anais/abralic/2013/Completo_Comunicacao_oral_idinscrito_22_d2e972605d17238545d72083ce11d812.pdf>
GANDRA, Manuel J. – O monumento de Mafra de A a Z [em linha]. Mafra: Câmara Municipal, 2013. [Consult. 5 dez. 2025]. Disponível na Internet:< https://www.academia.edu/28354691/O_Monumento_de_Mafra_de_A_a_Z_volume_2>

